Nos anos oitenta fiz a trilha sonora e a direção musical da remontagem carioca de Chapetuba Futebol Clube, peça de estreia de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha, 1938-1974), um dos responsáveis pela renovação da dramaturgia brasileira de cunho social. Na peça, Chapetuba é o clube de futebol de uma cidade imaginária do interior de São Paulo prestes a decidir a final da segunda divisão contra o Saboeiro, clube de uma cidade vizinha. O texto coloca em questão os interesses mais diversos, inclusive dilemas éticos envolvendo tentativas de suborno e pressões econômicas de toda ordem.
A montagem original estreou em 1959 pelo Teatro de Arena de São Paulo, com direção de Augusto Boal. Já a montagem da década de oitenta foi dirigida por Roberto Bontempo, no descolado Teatro Ipanema, e contou com um elenco quase todo formado por estreantes, muitos dos quais alcançariam reconhecimento posterior em teatro, cinema e TV: Moacyr Góes, Roney Villela, Rogerio Fabiano, Marcos Palmeira, Carlos Löffler e outros.
O hino do Chapetuba F.C.
O Hino do Chapetuba, aqui recuperado a partir de uma fita cassete gravada antes da mixagem definitiva, tenta emular o clima ufanista dos hinos esportivos dos anos quarenta a sessenta: é uma marchinha alegre e de letra fácil, que pontuava alguns momentos do espetáculo e continuava a tocar durante todo o intervalo do primeiro para o segundo ato.
Domani
No texto de Vianinha, havia uma estação de rádio em Chapetuba que transmitia as partidas do clube, e cuja narração em off é importante, no último ato, para a compreensão do que acontece em campo. Na versão dos anos oitenta, aumentamos a importância da emissora local, que também é ouvida na concentração da equipe e acaba fornecendo o fundo musical para algumas cenas.
Para dar a atmosfera da época, compus uma música incidental que evocava os sucessos italianos que tocavam no rádio nos anos cinquenta. Para dar um pouco mais de realismo, usei como letra algumas linhas de texto do personagem Conte di Rovre no drama histórico Re Carlo Alberto, de autoria de um dramaturgo italiano do início do século passado, Domenico Turatati. A letra, de 1909, tem uma vaga relação com a situação do Chapetuba, pois fala do clima de ansiedade e de esperança que precede uma grande batalha.
Areias Noturnas
Ainda como música incidental para as cenas da noite que antecedia a esperada final do campeonato da segunda divisão, compus um bolero instrumental chamado Areias Noturnas que toca no rádio, em segundo plano. É uma das pouquíssimos registros que tenho tocando gaita cromática.
NOTA: gravação de baixíssimo custo, completada numa única tarde num estúdio de ensaios que funcionava na rua Visconde da Graça, no Jardim Botânico. O registro era feito num gravador de rolo Tascam, de apenas quatro canais (qualquer estúdio doméstico, hoje, tem no mínimo 64 canais). As gravações foram copiadas para uma fita cassete antes da mixagem definitiva.
Vozes – Fernando Fernandes e Luiz Sarmanho
Guitarra – Luiz Sarmanho
Teclados, baixo e bateria – Neivaldo, Neilton e Branca de Neve (Banda Quarto Crescente).